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VOCÊ É UM INÚTIL

— VOCÊ É UM INÚTIL, UM LIXO QUE NÃO DEVERIA NEM RESPIRAR O MESMO AR QUE EU! — o grito de Otávio Mendonça cortou o luxuoso salão da cobertura como uma lâmina afiada, silenciando instantaneamente o quarteto de cordas e as conversas fúteis da elite paulistana. Otávio, um advogado cujos honorários eram medidos em barras de ouro e cujo ego não cabia nos mil metros quadrados do triplex, apontava o dedo trêmulo de raiva para Jorge, um garçom de sessenta e cinco anos que acabara de deixar cair uma única gota de um Romanée-Conti safra 1990 no sapato de couro de jacaré do anfitrião. — Limpe agora! Ajoelhe-se e use essa sua gravata barata para secar o meu sapato, ou eu garanto que você sairá daqui direto para o olho da rua e nunca mais servirá nem água em botequim de beira de estrada! — bradou Otávio, a face vermelha de fúria, enquanto os convidados observavam com uma mistura de tédio e diversão cruel. Jorge, um homem cuja dignidade estava gravada em cada ruga de seu rosto sereno, não se moveu. Ele manteve o olhar calmo, embora suas mãos, acostumadas ao peso de bandejas de prata, estivessem levemente cerradas ao lado do corpo. — Peço perdão, senhor Mendonça. Foi um acidente mecânico. Providenciarei o material de limpeza imediatamente, mas não me ajoelharei — respondeu Jorge, sua voz uma calmaria contrastante com a tempestade de Otávio. O silêncio que se seguiu foi sufocante. Beatriz, a noiva de Otávio, que ostentava um colar de diamantes que poderia alimentar uma vila por um ano, interveio com um suspiro de desdém: — Otávio, querido, não perca seu fôlego com essa gente. Apenas chame o metre e mande exterminar essa praga. Olhe para ele, nem sequer tem a decência de chorar. A arrogância de Otávio, alimentada pelo apoio da noiva e pelo olhar cínico dos presentes, atingiu o ápice. Ele pegou a taça de cristal das mãos de uma convidada próxima e virou o restante do vinho tinto sobre a cabeça de Jorge. O líquido escuro escorreu pelo rosto do senhor, manchando sua camisa branca impecável. — Agora você está adequadamente batizado, seu verme. Saia da minha frente antes que eu resolva usar sua cara como capacho! — rugiu Otávio, voltando-se para os convidados como se esperasse aplausos pela sua demonstração de poder. O que ele não esperava era o som pesado das portas duplas de carvalho se abrindo. Tiago, o jovem prodígio do mercado financeiro e o investidor que Otávio tentava cortejar há meses para salvar seu escritório de uma falência oculta, entrou no recinto. O silêncio mudou de natureza; tornou-se reverente. Otávio abriu um sorriso de lobo, limpando as mãos e caminhando em direção ao recém-chegado. — Tiago! Que honra! Chegou no momento exato em que eu colocava o lixo para fora — disse Otávio, estendendo a mão. Tiago, no entanto, passou por Otávio como se ele fosse um fantasma. O jovem bilionário caminhou direto para Jorge, que ainda pingava vinho. Com os olhos marejados de choque e raiva, Tiago tirou o próprio paletó de cashmere de cinco mil dólares e o colocou sobre os ombros do garçom. — Pai? O que significa isso? Por que você está assim? — a pergunta de Tiago ecoou como uma bomba. O salão congelou. Otávio sentiu o sangue fugir do rosto, tornando-se pálido como mármore de cemitério. — Pai? — gaguejou Otávio, as pernas vacilando. Jorge limpou o vinho dos olhos com o paletó do filho e, pela primeira vez, sorriu, um sorriso triste e sábio. — Eu só queria ver como o homem que cuida do nosso patrimônio jurídico trata aqueles que ele considera inferiores, Tiago. Você me disse que o Dr. Otávio era um homem de princípios. Eu preferi conferir pessoalmente, servindo as mesas antes de você chegar para a nossa reunião de conselho. Tiago virou-se para Otávio, seu olhar era puro gelo. — O Grupo Aliança, do qual meu pai é o fundador e presidente do conselho, retira todos os processos e contratos do seu escritório neste exato segundo, Mendonça. E como o prédio onde você mora e o escritório onde você trabalha pertencem à nossa holding, eu sugiro que você comece a empacotar. Você tem vinte e quatro horas para desocupar tudo. Otávio tentou balbuciar um pedido de desculpas, mas as palavras morriam em sua garganta seca. Beatriz, percebendo que o navio estava afundando, tentou se aproximar de Tiago, mas Jorge apenas ergueu a mão. — A lição hoje é de graça, senhor Mendonça — disse Jorge, com uma autoridade que nenhum terno caro jamais poderia comprar. — O poder é um empréstimo da vida, e ela cobra juros altíssimos de quem se esquece de que, debaixo de cada seda, bate um coração humano. Agora, se me dão licença, vou trocar de roupa. Este vinho era excelente, mas prefiro tomá-lo com amigos, não em cima da cabeça. Jorge e Tiago saíram sob o olhar estupefato da elite que, momentos antes, ria. Otávio, agora sozinho no centro do salão, olhou para o próprio sapato de jacaré. Havia uma mancha de vinho ali, pequena, mas que agora parecia o buraco negro que engoliria toda a sua vida de aparências. O silêncio final não era de respeito, era o som do esquecimento.
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O Coronel Chamou o Vaqueiro de Ladrão na Praça

— VOCÊ É UM LADRÃO, TIÃO! CABRA SAFADO, TIRA AS MÃOS DAS MINHAS RÉDEAS ANTES QUE EU TE MANDE PRA CADEIA AMARRADO NUM JUMENTO! — o grito do Coronel Justino ecoou como um tiro de espingarda pela praça central de Riacho Seco. O sol do meio-dia castigava o chão rachado, e a poeira levantada pelas botas do Coronel parecia sufocar os curiosos que se amontoavam ao redor. — Olhem bem para esse infeliz! Trinta anos comendo do meu prato para agora me roubar cinquenta cabeças de gado premiado! Fala, seu mudo! Explique pro delegado onde foi que você escondeu o meu patrimônio!

Tião, o vaqueiro de pele curtida pelo sol e mãos que pareciam raízes de aroeira, não desviou o olhar. Ele segurava o chapéu de palha contra o peito, mas seus olhos, pretos como jabuticaba, não brilhavam com o medo que Justino esperava. — O senhor tá gritando muito alto pra quem tem o teto de vidro, Coronel — respondeu Tião, com a voz calma de quem conhece o tempo da chuva. — Quem planta espinho não pode reclamar de andar descalço.

— Cale essa boca imunda! — Justino avançou, o rosto vermelho como um pimentão, a barriga protuberante sacudindo sob o colete de couro caro. Ele apontou o dedo trêmulo para o peito de Tião. — Delegado, leve esse bicho! Ele vendeu meu gado pro pessoal do sul, eu tenho as notas frias que ele assinou! Ele é um traidor, um verme que eu criei no meu quintal!

A multidão murmurava. Justino era o dono de metade das terras da região, um homem que governava pelo medo e pela humilhação. Tião sempre foi sua sombra, o homem que resolvia os problemas, que curava a bicheira do gado e que aguentava os insultos diários em silêncio. Ver Tião sendo humilhado assim era como ver o próprio Sertão sendo chicoteado. Mas Tião não se moveu. Ele apenas levou a mão ao bolso da calça de brim surrada e tirou um aparelho celular com a tela trincada.

— Pois olhe aqui pra todo mundo ver, Coronel. O senhor que enterrou o gado vivo na vala do Rio Morto pra cobrar o seguro da seguradora da capital! — Tião estendeu o celular, e a voz de Justino começou a sair pelo alto-falante, nítida, ríspida, dando ordens para um capanga enterrar os animais saudáveis e forjar um surto de febre aftosa. — O gado não sumiu, Coronel. O gado tá lá, apodrecendo por baixo da terra que o senhor mandou eu cavar. Só que eu não cavei sozinho.

O silêncio que se seguiu foi mais pesado que o calor. Justino empalideceu instantaneamente. — Isso é montagem! Isso é coisa de quem não tem onde cair morto! — ele gaguejou, tentando tomar o aparelho da mão de Tião, mas o vaqueiro foi mais rápido. — Não é só o áudio, Coronel. Tem o vídeo do senhor rindo, dizendo que o seguro ia pagar o triplo do que as rês valiam e que ainda ia sobrar a culpa pra eu carregar, porque o senhor já tinha arrumado as notas falsas com o seu primo lá da prefeitura.

A reviravolta foi como uma enxurrada de verão. O povo, que antes assistia passivo, começou a se aproximar com olhares de fúria. Justino, o homem que se achava deus naquelas terras, agora parecia um bicho encurralado. Ele tentou recuar em direção à sua caminhonete luxuosa, mas o Delegado, um homem de poucas palavras que assistia a tudo de braços cruzados, deu um passo à frente e colocou a mão no coldre. — Coronel, acho que a gente tem uma conversa longa na delegacia. E o gado… bom, a gente vai lá com a escavadeira conferir essa sua ‘perda’.

Tião guardou o celular. Ele olhou para o Coronel uma última vez, não com ódio, mas com a sabedoria de quem sabe que o mundo gira mais que roda de moinho. — O senhor sempre disse que eu era um bicho do mato, Justino. Pois saiba que bicho do mato conhece cada trilha, cada buraco e sabe exatamente onde a onça se esconde. O senhor tentou me destruir pra não pagar os trinta anos de serviço que me deve, mas se esqueceu que até o mandacaru tem espinho pra se defender.

Enquanto Justino era conduzido para a viatura sob as vaias da cidade, Tião caminhou calmamente até a beira da estrada. Ele sabia que a partir daquele dia não teria mais emprego, mas as terras que ele tinha comprado em segredo, pedaço por pedaço, com o pouco que sobrava do seu suor, estavam esperando por ele. Ele não tinha roubado nada; ele apenas tinha devolvido ao Coronel a própria maldade. O sol continuava quente, mas para Tião, o vento que soprava do sertão agora tinha o cheiro doce da liberdade. Ele colocou o chapéu de palha na cabeça, ajeitou a postura e começou a caminhar pela estrada de terra. A justiça tarda, diziam os antigos, mas no sertão, quando ela chega, vem com a força de um trovão que limpa o céu de toda a poeira.

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COMA DO CHÃO, SEU BODE MAGRO!

— COMA DO CHÃO, SEU BODE MAGRO! — O grito de Valderico rasgou o silêncio pesado da tarde na Escola Técnica Agrícola de Riacho das Almas. A marmita de alumínio de Zé Bento voou pelos ares, descrevendo um arco prateado antes de se chocar contra o chão de terra vermelha. A farofa de ovo com pedaços de charque, preparada com o último esforço da mãe de Zé naquela madrugada, espalhou-se pela poeira, misturando-se aos detritos do pátio. O pátio, um quadrado de terra batida cercado por muretas descascadas e a sombra rala de um juazeiro centenário, parou. Os outros alunos, filhos de pequenos posseiros ou herdeiros de latifúndios, recuaram, formando um círculo de omissão e medo. Valderico, o filho do ‘Coronel’ Agenor, o homem que mandava até na chuva daquela região, mantinha o pé direito sobre a borda da marmita amassada. Ele usava botas de couro de jacaré impecáveis, uma camisa de linho branco que não conhecia o suor do trabalho e um relógio de ouro que refletia a luz impiedosa do sol de quarenta graus. Zé Bento, o ‘novato das brenhas’, vindo de um assentamento onde a água era buscada no lombo do jumento, permanecia sentado no banco de madeira. Seu rosto era um mapa de cicatrizes do sol e da lida, mas seus olhos, escuros e profundos como poços artesianos, não baixaram. — AQUI QUEM MANDA SOU EU, FILHO DE RETIRANTE! — Valderico deu um passo à frente, chutando um punhado de terra propositalmente sobre o que restava do alimento. — Limpa a minha bota agora com essa tua língua de faminto, e talvez eu deixe tu lamber o resto da farofa. O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo canto agudo das cigarras, que pareciam anunciar uma tempestade que nunca vinha. Zé Bento levantou-se devagar. Ele era mais alto que Valderico, embora sua postura sempre fosse curvada pelo peso dos fardos de lenha e do preconceito. Agora, ele se empertigou. O suor escorria por suas têmporas, limpando sulcos na poeira que cobria sua pele curtida. — POIS SE PREPARE, QUE HOJE TU VAI SENTIR O GOSTO DA TERRA QUE TU TANTO DESPREZA! — A voz de Zé Bento saiu rascante, como uma enxada batendo em pedra de amolar. Antes que Valderico pudesse reagir com seu riso de escárnio, a mão de Zé Bento, grossa e forte como raiz de umbuzeiro, disparou. Ele agarrou Valderico pelo colarinho da camisa cara com uma força descomunal, suspendendo o valentão até que as pontas de suas botas de luxo perdessem o contato com o chão. O pânico substituiu a arrogância no rosto de Valderico instantaneamente. ‘Tu acha que o dinheiro do teu pai te faz maior que o chão que te sustenta, Valderico?’, rosnou Zé Bento, o rosto a milímetros do outro. ‘Essa terra que tu sujou é o que põe comida na mesa de quem trabalha de verdade. Tu cospe nela porque nunca teve que sangrar pra tirar um pé de milho do sol escaldante.’ Com um movimento brusco, Zé Bento arrastou o rapaz até o centro do pátio e o jogou de joelhos sobre a farofa suja. A humilhação mudou de lado. Valderico tentou protestar, mas a mão de Zé Bento pesou sobre seu ombro como uma prensa hidráulica. ‘Agora, tu não vai comer. Tu vai pedir desculpa pra cada grão que tu desperdiçou. Porque no sertão, quem humilha o pão, humilha a própria alma.’ Os outros alunos começaram a murmurar, perdendo o medo, vendo que o ‘coronelzinho’ não passava de um boneco de pano nas mãos de quem realmente conhecia a dureza da vida. Soluçando de raiva e vergonha, sob o olhar implacável de quem nada tinha a perder, Valderico foi obrigado a recolher, grão por grão, a comida da terra, enquanto Zé Bento, com a dignidade restaurada, limpava as mãos na calça remendada e voltava para sua lição, provando que a fibra de um homem não se mede pelo ouro, mas pela terra que ele respeita.