Publicado em — Deixe um comentário

COMA DO CHÃO, SEU BODE MAGRO!

— COMA DO CHÃO, SEU BODE MAGRO! — O grito de Valderico rasgou o silêncio pesado da tarde na Escola Técnica Agrícola de Riacho das Almas. A marmita de alumínio de Zé Bento voou pelos ares, descrevendo um arco prateado antes de se chocar contra o chão de terra vermelha. A farofa de ovo com pedaços de charque, preparada com o último esforço da mãe de Zé naquela madrugada, espalhou-se pela poeira, misturando-se aos detritos do pátio. O pátio, um quadrado de terra batida cercado por muretas descascadas e a sombra rala de um juazeiro centenário, parou. Os outros alunos, filhos de pequenos posseiros ou herdeiros de latifúndios, recuaram, formando um círculo de omissão e medo. Valderico, o filho do ‘Coronel’ Agenor, o homem que mandava até na chuva daquela região, mantinha o pé direito sobre a borda da marmita amassada. Ele usava botas de couro de jacaré impecáveis, uma camisa de linho branco que não conhecia o suor do trabalho e um relógio de ouro que refletia a luz impiedosa do sol de quarenta graus. Zé Bento, o ‘novato das brenhas’, vindo de um assentamento onde a água era buscada no lombo do jumento, permanecia sentado no banco de madeira. Seu rosto era um mapa de cicatrizes do sol e da lida, mas seus olhos, escuros e profundos como poços artesianos, não baixaram. — AQUI QUEM MANDA SOU EU, FILHO DE RETIRANTE! — Valderico deu um passo à frente, chutando um punhado de terra propositalmente sobre o que restava do alimento. — Limpa a minha bota agora com essa tua língua de faminto, e talvez eu deixe tu lamber o resto da farofa. O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo canto agudo das cigarras, que pareciam anunciar uma tempestade que nunca vinha. Zé Bento levantou-se devagar. Ele era mais alto que Valderico, embora sua postura sempre fosse curvada pelo peso dos fardos de lenha e do preconceito. Agora, ele se empertigou. O suor escorria por suas têmporas, limpando sulcos na poeira que cobria sua pele curtida. — POIS SE PREPARE, QUE HOJE TU VAI SENTIR O GOSTO DA TERRA QUE TU TANTO DESPREZA! — A voz de Zé Bento saiu rascante, como uma enxada batendo em pedra de amolar. Antes que Valderico pudesse reagir com seu riso de escárnio, a mão de Zé Bento, grossa e forte como raiz de umbuzeiro, disparou. Ele agarrou Valderico pelo colarinho da camisa cara com uma força descomunal, suspendendo o valentão até que as pontas de suas botas de luxo perdessem o contato com o chão. O pânico substituiu a arrogância no rosto de Valderico instantaneamente. ‘Tu acha que o dinheiro do teu pai te faz maior que o chão que te sustenta, Valderico?’, rosnou Zé Bento, o rosto a milímetros do outro. ‘Essa terra que tu sujou é o que põe comida na mesa de quem trabalha de verdade. Tu cospe nela porque nunca teve que sangrar pra tirar um pé de milho do sol escaldante.’ Com um movimento brusco, Zé Bento arrastou o rapaz até o centro do pátio e o jogou de joelhos sobre a farofa suja. A humilhação mudou de lado. Valderico tentou protestar, mas a mão de Zé Bento pesou sobre seu ombro como uma prensa hidráulica. ‘Agora, tu não vai comer. Tu vai pedir desculpa pra cada grão que tu desperdiçou. Porque no sertão, quem humilha o pão, humilha a própria alma.’ Os outros alunos começaram a murmurar, perdendo o medo, vendo que o ‘coronelzinho’ não passava de um boneco de pano nas mãos de quem realmente conhecia a dureza da vida. Soluçando de raiva e vergonha, sob o olhar implacável de quem nada tinha a perder, Valderico foi obrigado a recolher, grão por grão, a comida da terra, enquanto Zé Bento, com a dignidade restaurada, limpava as mãos na calça remendada e voltava para sua lição, provando que a fibra de um homem não se mede pelo ouro, mas pela terra que ele respeita.

Deixe uma resposta