
LURDES: “VOCÊ É UMA DOENTE, FABIANA! UMA DOENTE MENTAL! O MEU AFONSO NÃO É UM PUFE PARA VOCÊ APOIAR OS SEUS PÉS CANSADOS DE FAZER COMPRAS NA EUROPA!”
O grito de Dona Lurdes ecoa pelo corredor de mármore do décimo oitavo andar do Edifício Golden Towers, fazendo os lustres de cristal tremerem. Ela está parada na porta aberta da cobertura de Fabiana, com o dedo trêmulo apontado para o centro da sala minimalista.
Fabiana, elegantemente vestida em um conjunto de seda creme, segura uma taça de espumante com uma calma gélida. Ela nem sequer se digna a levantar do que parece ser uma luxuosa poltrona de veludo dourado, embora, sob um olhar mais atento, a poltrona tenha nádegas, pernas e esteja respirando pesadamente.
FABIANA: “Lurdes, querida, baixe o tom. Você está perturbando o ‘feng shui’ da minha recepção. E, tecnicamente, o Afonso não é um pufe. Ele é uma ‘Chaise Longue Viva’ da coleção de outono de um designer dinamarquês que você, obviamente, não tem refinamento para conhecer.”
Valtinho, o segurança do condomínio, chega correndo, com a mão no rádio e o quepe levemente torto. Ele para no batente da porta, os olhos arregalados, alternando o olhar entre a socialite e o objeto de mobília humano que acaba de soltar um gemido abafado.
VALTINHO: “Dona Fabiana… pelo amor de Deus… o síndico recebeu reclamações de um ‘choro vindo das paredes’. Eu achei que era infiltração, mas… aquele ali é o Sr. Afonso do 402? Por que ele está pintado de dourado e servindo de suporte para o seu notebook?”
LURDES: “É SEQUESTRO! É TORTURA! VALTINHO, PRENDA ESSA MULHER AGORA! ELA PASSOU MEL NO MEU EX-MARIDO E O COLOCOU PARA SERVIR DE MESA DE CENTRO!”
Fabiana solta uma risada curta e seca, caminhando até uma luminária de canto que, na verdade, é um homem magro e alto segurando uma cúpula de linho sobre a cabeça enquanto permanece em uma pose de ioga impossível.
FABIANA: “Ninguém foi sequestrado, seus provincianos. O Afonso estava atolado em dívidas de jogo e condomínio atrasado. Eu ofereci uma saída digna: ele se torna parte do meu acervo de arte viva e, em troca, eu quito as notas promissórias dele. Ele nunca esteve tão bem cuidado. Eu até passo lustra-móveis hidratante nele duas vezes por dia!”
O ‘pufe’ dourado, que de fato é Afonso, o ex-marido de Lurdes, finalmente quebra o silêncio. Sua voz sai abafada pelo esforço de manter o tronco rígido sob o peso dos livros de arte de Fabiana.
AFONSO: “Lurdes… por favor… vai embora… ela paga melhor que a aposentadoria… e a dieta é só suco verde… eu já perdi dez quilos sendo uma otomana…”
LURDES: “AFONSO, VOCÊ É UM FROUXO! ESTÁ SENDO HUMILHADO EM TROCA DE IPTU PAGO? OLHA O SEU ESTADO! VOCÊ ESTÁ COMBINANDO COM AS CORTINAS!”
VALTINHO: “Gente, eu não tenho treinamento para isso. O curso da empresa cobria invasão de domicílio e incêndio, não mobília humana com consciência. Dona Fabiana, a senhora tem nota fiscal dessas… pessoas?”
FABIANA: “Valtinho, não seja obtuso. Isso é o ‘Minimalismo Antropomórfico’. É a última tendência nos condomínios de luxo de Balneário Camboriú. Por que gastar milhões em couro italiano se eu posso ter um móvel que me agradece quando eu sento nele? É sustentável! É orgânico!”
De repente, a ‘mesa de centro’ ao lado — um rapaz jovem, também pintado de ouro, que sustenta uma bandeja de cristais — começa a tremer violentamente. O tilintar das taças cria um ritmo nervoso na sala.
FABIANA: “Ricardo! Estabilidade! Eu já disse que a mesa de centro não tem opinião própria, portanto, não deve tremer durante o serviço!”
RICARDO: “Dona Fabiana… é uma cãibra no glúteo… eu não aguento mais ser um apoio de pés… eu quero ser uma estante de novo… a estante pelo menos podia ficar encostada na parede…”
LURDES: “OUVIU ISSO? É UM GRITO DE SOCORRO! EU VOU CHAMAR A VIGILÂNCIA SANITÁRIA! EU VOU CHAMAR O IBAMA! EU VOU CHAMAR O RECORDE MUNDIAL!”
Fabiana se aproxima de Lurdes, o rosto a poucos centímetros do dela, a expressão de superioridade inabalável.
FABIANA: “Chame quem você quiser, Lurdes. Mas lembre-se: o seu marido sempre disse que você era ‘pesada’. Aqui, como minha poltrona preferida, ele finalmente entendeu o que isso significa na prática. Agora, Valtinho, retire essa mulher daqui antes que ela manche o meu tapete de pele de pêssego, que, inclusive, é o seu primo de Itajaí.”
Valtinho recua um passo, olhando para o tapete com horror absoluto, enquanto Lurdes solta um grito de indignação que ecoa por todo o condomínio.
LURDES: “MEU PRIMO JORGE? FABIANA, VOCÊ VAI PAGAR POR CADA CENTÍMETRO DE MOBÍLIA!”
Enquanto Lurdes é arrastada por Valtinho para fora, Afonso, o pufe dourado, solta um suspiro profundo de resignação.
AFONSO: “Fabiana… querida… o livro de capa dura da Taschen está machucando a minha lombar… será que poderíamos trocar por uma revista de fofoca mais leve?”
FABIANA: “Silêncio, Afonso. Móveis não pedem troca de capa. Agora fique imóvel, a luz da tarde está perfeita sobre o seu tórax.”
Fabiana volta a sentar-se calmamente sobre Afonso, tomando um gole de seu espumante enquanto observa a vista da cidade, enquanto o condomínio inteiro entra em colapso com a descoberta do novo padrão de decoração da elite local.
