
— VOCÊ É UM LADRÃO, TIÃO! CABRA SAFADO, TIRA AS MÃOS DAS MINHAS RÉDEAS ANTES QUE EU TE MANDE PRA CADEIA AMARRADO NUM JUMENTO! — o grito do Coronel Justino ecoou como um tiro de espingarda pela praça central de Riacho Seco. O sol do meio-dia castigava o chão rachado, e a poeira levantada pelas botas do Coronel parecia sufocar os curiosos que se amontoavam ao redor. — Olhem bem para esse infeliz! Trinta anos comendo do meu prato para agora me roubar cinquenta cabeças de gado premiado! Fala, seu mudo! Explique pro delegado onde foi que você escondeu o meu patrimônio!
Tião, o vaqueiro de pele curtida pelo sol e mãos que pareciam raízes de aroeira, não desviou o olhar. Ele segurava o chapéu de palha contra o peito, mas seus olhos, pretos como jabuticaba, não brilhavam com o medo que Justino esperava. — O senhor tá gritando muito alto pra quem tem o teto de vidro, Coronel — respondeu Tião, com a voz calma de quem conhece o tempo da chuva. — Quem planta espinho não pode reclamar de andar descalço.
— Cale essa boca imunda! — Justino avançou, o rosto vermelho como um pimentão, a barriga protuberante sacudindo sob o colete de couro caro. Ele apontou o dedo trêmulo para o peito de Tião. — Delegado, leve esse bicho! Ele vendeu meu gado pro pessoal do sul, eu tenho as notas frias que ele assinou! Ele é um traidor, um verme que eu criei no meu quintal!
A multidão murmurava. Justino era o dono de metade das terras da região, um homem que governava pelo medo e pela humilhação. Tião sempre foi sua sombra, o homem que resolvia os problemas, que curava a bicheira do gado e que aguentava os insultos diários em silêncio. Ver Tião sendo humilhado assim era como ver o próprio Sertão sendo chicoteado. Mas Tião não se moveu. Ele apenas levou a mão ao bolso da calça de brim surrada e tirou um aparelho celular com a tela trincada.
— Pois olhe aqui pra todo mundo ver, Coronel. O senhor que enterrou o gado vivo na vala do Rio Morto pra cobrar o seguro da seguradora da capital! — Tião estendeu o celular, e a voz de Justino começou a sair pelo alto-falante, nítida, ríspida, dando ordens para um capanga enterrar os animais saudáveis e forjar um surto de febre aftosa. — O gado não sumiu, Coronel. O gado tá lá, apodrecendo por baixo da terra que o senhor mandou eu cavar. Só que eu não cavei sozinho.
O silêncio que se seguiu foi mais pesado que o calor. Justino empalideceu instantaneamente. — Isso é montagem! Isso é coisa de quem não tem onde cair morto! — ele gaguejou, tentando tomar o aparelho da mão de Tião, mas o vaqueiro foi mais rápido. — Não é só o áudio, Coronel. Tem o vídeo do senhor rindo, dizendo que o seguro ia pagar o triplo do que as rês valiam e que ainda ia sobrar a culpa pra eu carregar, porque o senhor já tinha arrumado as notas falsas com o seu primo lá da prefeitura.
A reviravolta foi como uma enxurrada de verão. O povo, que antes assistia passivo, começou a se aproximar com olhares de fúria. Justino, o homem que se achava deus naquelas terras, agora parecia um bicho encurralado. Ele tentou recuar em direção à sua caminhonete luxuosa, mas o Delegado, um homem de poucas palavras que assistia a tudo de braços cruzados, deu um passo à frente e colocou a mão no coldre. — Coronel, acho que a gente tem uma conversa longa na delegacia. E o gado… bom, a gente vai lá com a escavadeira conferir essa sua ‘perda’.
Tião guardou o celular. Ele olhou para o Coronel uma última vez, não com ódio, mas com a sabedoria de quem sabe que o mundo gira mais que roda de moinho. — O senhor sempre disse que eu era um bicho do mato, Justino. Pois saiba que bicho do mato conhece cada trilha, cada buraco e sabe exatamente onde a onça se esconde. O senhor tentou me destruir pra não pagar os trinta anos de serviço que me deve, mas se esqueceu que até o mandacaru tem espinho pra se defender.
Enquanto Justino era conduzido para a viatura sob as vaias da cidade, Tião caminhou calmamente até a beira da estrada. Ele sabia que a partir daquele dia não teria mais emprego, mas as terras que ele tinha comprado em segredo, pedaço por pedaço, com o pouco que sobrava do seu suor, estavam esperando por ele. Ele não tinha roubado nada; ele apenas tinha devolvido ao Coronel a própria maldade. O sol continuava quente, mas para Tião, o vento que soprava do sertão agora tinha o cheiro doce da liberdade. Ele colocou o chapéu de palha na cabeça, ajeitou a postura e começou a caminhar pela estrada de terra. A justiça tarda, diziam os antigos, mas no sertão, quando ela chega, vem com a força de um trovão que limpa o céu de toda a poeira.
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